

Dedico esse primeiro momento para uma apresentação formal, situando quem sou, dentro do contexto profissional, mas também das questões que me movem enquanto pessoa. Baiano do sul (sul da Bahia), natural e residente na cidade de Itabuna- BA. Formação inicial no curso de Licenciatura em Física (2008) e Mestrado em Física (2011) pela Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC/BA. Na área de ensino/educação cursei Especialização em Ensino de Física na Universidade Cândido Mendes – UCAM/RJ (2017) e Doutorado em Ensino, Filosofia e História das Ciências pela Universidade Federal da Bahia/Universidade Estadual de Feira de Santana – UFBA/UEFS (2019). Atuo como docente no Instituto Federal da Bahia desde 2009, e aqui em Ilhéus a partir de fevereiro de 2012, quando do início dos cursos regulares (Técnicos integrados e subsequentes). Antes disso, fui professor do Campus Eunápolis, por quase 2,5 anos, o qual agrego minha primeira experiência docente com vínculo oficial, que contribuiu com o meu fazer docente aqui no campus.
Sou corredor amador, gosto de Axé Music e forró, apaixonado por Salvador/BA e João Pessoa/PB (não antes de Itabuna) e acredito que os bons ainda são maioria. Imerso no campo da pesquisa e na minha atuação docente, tenho me interessado na leitura de temas ligados a educação para as relações étnico-raciais, e outros sobre a comunidade LGBTQIAPN+; entendo que a partir da minha pertença nesses grupos preciso ser instrumento para que outros/as iguais sintam o IFBA um lugar seu, mais que isso, que a sociedade os acolha e respeite, sendo-lhe oferecido condições de igualdade no meio de tantas desigualdades.
Cheguei na Física por conta da Matemática, por achar seu formalismo uma das coisas mais belas vista (ainda fica como projeto futuro cursar a graduação em Matemática – mesmo tenho direcionado minhas disciplinas optativas na graduação para a área e já ter ministrando Matemática – inclusive minha primeira experiência docente, foi ensinando matemática). Realizado em ser professor do Ensino Médio – assim que me apresento nos lugares que vou – e grato pela oportunidade de atuar na educação básica com bom salário e ter condições de trabalho que me permita romper a barreira apenas do ensino, pensando na dimensão da pesquisa e da extensão.
Formalmente, estou vinculado ao IFBA campus Ilhéus desde 27/02/2012, sendo o primeiro docente da área de Física a chegar no Campus (pode dizer que não parece, com essa cara de jovem, rs). Isso me fez vivenciar parte dos primeiros passos desse campus, podendo avaliar a trajetória, e como o campus caminhou para como se apresenta hoje. Digo que o IFBA (no geral) foi minha escola de formação, porque construí minha trajetória aqui. Cheguei pequeno no instituto, trazendo apenas meu diploma de licenciado, mas grande em sonhos e perspectivas.
Neste memorial vou me ater a uma reflexão mais qualitativa sobre a minha trajetória e impressões no IFBA Ilhéus ao longo desses 14 anos que estou vinculado a este campus. Creio que essa reflexão de forma ampliada, em alguma medida, responde ao que motiva a pesquisa descrita no projeto.
Pelo próprio contexto de estar num campus em implantação preciso dizer que mais oportunidades me foram apresentadas no IFBA campus Ilhéus comparativamente ao campus Eunápolis. O fato de sermos ainda um número restrito de servidores/as, exigia de nós assumirmos atribuições e participação em comissões que nos forneciam experiências do fazer institucional extremamente relevantes para nossa carreira. Um parêntese sobre minha estada no Campus Eunápolis – foi um momento que ainda cursava o mestrado, e precisava estar sempre em trânsito, entre Eunápolis e Itabuna, ainda assim participei com orientação de projetos no PAAE e monitorias, além de comissões como a SNCT. Mas também tive a impressão que me viam como profissional inexperiente, em crescimento e com habilidades a construir. Não assumi presidência de comissões ou convidado para funções de gestão (não que eu tivesse aceitado naquela ocasião). Chegar ao campus com 21 anos de idade pode ter carregado uma parcela disso. Apesar de terem muito a ensinar, certamente deixei coisas a compartilhar – uma vez que a dedicação no fazer profissional, a postura ética e a sensibilidade sempre foram minhas características. A minha primeira casa, meu carinho e respeito e pelos aprendizados sobre ser docente numa instituição com a dimensão do IFBA.
Minhas motivações de vir para o campus Ilhéus era a família, o fato da proximidade com a UESC, aumentando as chances de parcerias, e mesmo a qualificação em nível de doutorado (já cheguei no campus Ilhéus com mestrado concluído) a partir de programas já existentes, como o de Desenvolvimento e Meio Ambiente (com campo de pesquisa para físicos), ou prevendo aprovação de APCN em nível de doutorado na Física ou na área de ensino/educação. A questão não era o campus Eunápolis que por sinal, era muito feliz trabalhando por lá, mas não pedir remoção naquele momento, poderia implicar em maiores dificuldades de retornar para casa – leia-se sul da Bahia – no futuro.
Meu olhar para o ensino no IFBA campus Ilhéus me levou a uma atuação docente mais reflexiva, mas também no desenvolvimento de práticas de ensino contextualizada e conectadas com outras ações e eventos institucionais que aconteciam. Pessoas que me viram como docente em 2012 e me veem hoje certamente percebem a diferença nos modos de avaliação, tanto quanto a diversidade de instrumentos (algumas bem criativas), mas também sobre a exigência de conceitos físicos com maior formalismo; hoje de forma mais contextualizada e a partir de situações que deem significado para os/as estudantes – mas minha linha básica ainda segue amarrada numa abordagem mais tradicional.
Realizei visitas técnicas, com grande parceria junto ao Observatório Astronômico da UESC (OAU), desenvolvi programas de Monitorias de disciplina, trouxemos o “Caminhão com Ciência” numa das SNCT desenvolvida pelo campus, e fui membro assíduo de comissões na organização de eventos dessa natureza, ou naqueles que contribuem no pensar o ano letivo, como as Jornadas Pedagógicas, e jornada discente. Foi com esse olhar também que assumi a representação de área (Ciências da Natureza e Matemática), que pensei e organizei eventos, projetos de ensino, além de projetar e executar sábados letivos das mais diversas formas.
Aqui tenho atuação engajada nos cursos técnicos integrados e subsequentes (este último, hoje em processo de descontinuidade), contribuindo na dinâmica dos processos, por meio de ocupar vaga no conselho de curso e na GAE – Gestão de Assistência Estudantil (que permaneci por alguns anos). Tive papel relevante na institucionalização da CAEPE (Coordenação Geral de Apoio ao Ensino e Aprendizagem e Programas Estudantis) que se constituiu como uma referência para o trabalho da equipe multidisciplinar, e venho constantemente repensando minha prática a partir de demandas emergentes da sociedade, das reflexões trazidas no GPEDI e de novas questões que surgem para o ensino de Física, vislumbrando o ideal de termos de fato um ensino integrado. Isso tem de fato me incentivado a estar em contato com a pesquisa, em educação e em ensino, motivado pela participação em eventos científicos.
Pensando na pesquisa, destaco minha atuação como orientador de projetos de Iniciação Científica Júnior (Ensino Médio). Com orgulho, digo que participei de todos os editais ininterruptamente de 2013 até 2023 das bolsas de IC nessa modalidade, dando grande contribuição à pesquisa e o olhar para a pesquisa como princípio pedagógico aqui no Campus. O que me levou a ter quase 20 orientandos entre concluídos e andamento. Atuei como segundo líder de grupo de pesquisa (Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente) junto com o Prof. Philipe Murillo, o primeiro Grupo de Pesquisa do IFBA Campus Ilhéus, quando nosso corpo docente ainda não tinha maturidade em termos de titulação, que permitia termos um número maior de GP, como temos hoje. A fundação do GPEDI (Grupo de Pesquisa Práticas Educativas, Docência e Interculturalidade) em 2020 com um grupo de pesquisadores/as que tomam a educação básica (em especial o EMI) como tema de pesquisa, é fruto também de um desejo pessoal quando do meu retorno do doutorado, e da possibilidade de consolidarmos um grupo de pesquisa em educação, no qual a nossa prática também pudesse ser avaliada.
Embora com contribuições discretas na extensão, destaco minha liderança no “Ciência Interativa” que nasce no ano de 2014, e desde então tem sido executado por um grupo de pessoas da área de Ciências da Natureza e Matemática de forma contínua, que acreditam que é possível promover uma educação científica diferente, como o próprio nome já diz, “interativa”. Certamente foram aprendizados do “Caminhão com Ciência” que trago da UESC, quando ainda era estudante e fui bolsista naquela ocasião, divulgando ciência e construindo experimentos para o acervo do projeto.
Como citado no início deste memorial, aqui no Campus Ilhéus tive mais oportunidades na dimensão da gestão. Incluindo aí a chefia/coordenação da COPEX, CAEPE e Diretoria Acadêmica (como vínculos formais), mas também nas representações de órgãos e colegiados e coordenação de eventos. A gestão não é meu foco principal no meu fazer enquanto servidor público da docência, mas tenho plena convicção das ações que fiz frente a gestão, muito delas pioneiras, que evidenciam um fazer comprometido, quando se pensa em educação. Talvez pelo comprometimento, evito assumir essas funções, pois demandam tempo, e gasto energético, físico e mental, mas sei do quão importante é pessoas como eu, que carrego muitas características de pessoas por muito tempo marginalizadas estarem nesses espaços. Negro, Homossexual, egresso de escola pública, estar nesses espaços de poder e representação é fazer militância, é em alguma medida ser referência. Ser gestão, ao meu ver, é mobilizar talentos, a partir do que é possível oferecer de melhor para os objetivos institucionais, mesmo quando pairam algumas divergências.
Deixo um espaço para falar do NEABI o qual faço parte desde sua fundação aqui no IFBA Ilhéus (participando menos do que gostaria). Há dimensões que atravessam nossa instituição de maneira muito profunda, e nesse sentido percebo que o IFBA Ilhéus é um espaço muito melhor do que as escolas eram a tratar de temáticas como o enfrentamento ao racismo. O NEABI é um espaço de aquilombamento aqui do Campus Ilhéus, assim como grupos que se organizam para viver e sobreviver. Coletivos de mulheres, negros, LGBTQIAPN+, etc. Vejo os estudantes (pelo menos a maioria) se assumirem como tais, com orgulho, querendo visibilidade e abrindo caminhos mesmo quando eles não se apresentam. Vejo brotar diversidade, e que elas se movimentam para ganhar espaço e reconhecimento. Ver isso pulsar no nosso campus dá um orgulho danado – e isso não diminui a competência técnica que sabemos ser necessária nas áreas às quais ofertamos formação. Sou docente da área de Física, pesquisador do campo do Ensino, mas essas questões que me atravessam me interessam. Para aprender, compartilhar, fortalecer e para fazer as coisas acontecerem. Às vezes são tantos espaços que queremos estar presente que não conseguimos.
O IFBA Ilhéus é um espaço que contribui constantemente para me fazer docente e um indivíduo que deve olhar para a sociedade e pensar em mudanças. É assim que me vejo nessa instituição, como um lugar onde eu quis estar, e hoje quero permanecer. Naturalmente como um espaço de educação, aqui é também um campo de disputas sobre como se faz educação. Ao meu ver, essas disputas por vezes extrapolam as ideias/concepção, e podem tornar o ambiente menos saudável no âmbito das relações (minha forma de ver as coisas, me blinda um pouco disso, mas notadamente há um prejuízo para o trabalho em coletividade – já fizemos mais trabalhos em parcerias, e hoje somos um campus composto por muitas ilhas). Essas questões, creio que trazem experiências negativas… para mim, que extrapolam para além do campo das ideias, mas de relações pessoais, que ficam mais acirradas em período de eleições de representantes – direção/reitoria. Mas hoje estou mais maduro, a gente fica mais velho, amadurece como pessoa, como profissional, como tudo. Aprende a importância da disputa no campo das ideias, mas se entristece quando elas vão para o pessoal – ah, entristece é uma palavra doce, as sensações podem ser outras.
Reflito também num aspecto mais amplo sobre o papel do IFBA (e da instituição escolar no geral). A geração de jovens hoje dialoga com outras coisas, outras ferramentas, e vejo a escola muito próxima de um ambiente mais tradicional e de relação hierarquizada (apesar de já perceber frentes de mudança, muito pouco mudou).
Trazendo comigo características que me tornam vulnerável quanto a discriminação e preconceito, poucas foram as situações que vi isso escancarado aqui. Comigo pouquíssimas (já tive a oportunidade de relatar em umas das SECONE em 2018 quando estive aqui no campus, ainda no período de organização – reflexo do racismo estrutural). Mas sei de outras, que nos acende o alerta, que apesar dos avanços, precisamos avançar. Também a posição que ocupo me deixa menos vulnerável, e isso pode ser responsável pelo olhar que teço neste parágrafo. Aqui no IFBA sou menos suscetível – nos bastidores e fora daqui, são outros quinhentos.
Estar no IFBA Campus Ilhéus me permitiu me ver grande e me tornar grande. Avalio que temos o desafio de estar na comunidade e se fazer (re)conhecido (é estranho porque já dizia isso há um tempo atrás e percebo que caminhamos pouco nesse aspecto). Enquanto instituição pública com servidores/as bem qualificados, oferecemos menos do que a nossa capacidade. Pondero que individualmente vejo alguns colegas com muitas demandas que não os permitem ir além (afinal somos humanos/as e temos nossas limitações) – mas no coletivo, sim, temos que pensar estratégias. Eis um paradoxo. Constantemente temos relatos exitosos de nossos egressos nas mais diversas áreas, no acadêmico, profissional, ou no seu crescimento pessoal, bem como atuais estudantes que relatam o quanto o IFBA Ilhéus significa e vem transformando suas vidas. Mas sim, ainda excluímos muito e é preciso olhar para essa parcela que ingressa, e acaba saindo em seguida, muito provavelmente por falhas institucionais no processo, que não são capazes de garantir sua permanência.
Tem muito de mim aqui nessa instituição e é daqui nessa imersão que me formo pessoa, docente, gestor e pesquisador. Ver o nascimento do IFBA Ilhéus como vetor de mudança para o sul da Bahia quando da sua implantação, muitas pessoas que se foram e chegaram por cá, me faz pensar em possibilidades para o futuro. Vislumbrar desafios que vão além de novas ofertas de cursos e qualificação profissional, mas atender a partir da escuta, às demandas da comunidade no qual ele (o IFBA) está inserido, e garantir que sejamos uma instituição para a classe trabalhadora, que pense no ingresso, mas também a permanência da sua comunidade: diversa e plural, e que vê na educação uma possibilidade real de mudança de futuro (naturalmente para melhor). Talvez pareça uma utopia, mas esse é o farol que precisamos para seguir.
“Local de trabalho não é para fazer amigos”… Mas posso dizer que fiz alguns. As relações pessoais são um diferencial do nosso campus. Isso se aplica para quem é próximo e quem não é. Pra mim, isso torna a experiência aqui positiva. A sala dos professores/as é um bom lugar de estar (com ar-condicionado ligado de preferência, rs), dá para trabalhar muito pouco, mas preserva uma riqueza que gabinetes e departamentos demarcados por área de conhecimento não tem, essa multiplicidade de olhares, a possibilidade de conversar sobre corrida, ou sobre shows, ou mesmo fofoca. São coisas das relações humanas, que nos fazem humanos. Não posso deixar de destacar a quadra de vôlei (a de areia mais ainda), que foi encontro das sextas-feiras de parte dos servidores/as – os encontros que também contribuem para a saúde do servidor.
Como sigo por cá… ainda há histórias para escrever, e em breve volto para retratar mais dessas memórias.
